Publicado por: Samuel | Novembro 2, 2009

Descobertas

airplane

Os nossos olhos nem sempre nos dizem a verdade. Somos nós que, se formos capazes, extraimos a verdade daquilo que eles nos dão.

Se num dia de Verão olharmos para um avião que voe bem alto, com a sua barriga brilhando ao sol, não vemos mais do que um objecto do tamanho de uma formiga que se move através dos céus. O belo em tudo isso é sermos capazes de perceber que aquele objecto que vemos tão pequeno é afinal gigantesco. Dentro dele seguem pessoas como nós que no mesmo momento em que nós olhamos o avião cá de baixo conversam, andam, dormem e pensam em mil e uma coisas. Em tão pequeno ponto no céu existe vida, existe um pequeno mundo. E isso, para mim, por mais ridículo que possa parecer, foi mais importante do que descobrir vida em Marte.

Publicado por: Samuel | Novembro 1, 2009

O Tempo que as Coisas Demoram I

A dupla Sergio Leone / Ennio Morricone resultou em filmes absolutamente fabulosos. Na vertente dos westerns (e particularmente os spaghetti westerns) é impossível passar ao lado da trilogia dos dolares composta pelos filmes Por Um Punhado de Dolares, Por Alguns Dolares Mais e O Bom, O Mau e o Vilão nos quais o “Homem sem nome” (interpretado por Clint Eastwood) é a personagem principal.

O que particularmente me atrai na obra cinematográfica de Sergio Leone é essa fenomenal capacidade de saber gerir o tempo de cena, a sua respiração natural e os planos apertados que faz do rosto e olhos das personagens. As bandas sonoras de Ennio Morricone são o eco da luta interior das personagens, da tensão da cena e da grandiosidade dos momentos. É uma forma de fazer e musicar cinema que já não se vê.

Era Uma Vez no Oeste é mais um desses filmes brilhantes. A cena que podem ver abaixo é o duelo final desse filme com a participação do saudoso Charles Bronson. É uma das inúmeras cenas dos filmes de Leone que nunca me canso de rever.

Outro grande exemplo pode ser a cena do duelo perto do final do filme O Bom, O Mau e o Vilão com Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef. Repare-se na respiração de toda a cena, nos momentos de silêncio e nos planos usados.

É importante dar às coisas o tempo que elas precisam para acontecer e é preciso que os espectadores saibam apreciar a beleza do tempo que elas demoram a materializar-se.

Publicado por: Samuel | Outubro 31, 2009

Leituras XLI – José Saramago – Ensaio Sobre a Lucidez

Capa do livro Ensaio Sobre a Lucidez

Não, não se trata do último livro de José Saramago! Também não é o anterior a esse! E não vou falar da opinião de José Saramago sobre a Bíblia.

Agora que se fizeram os esclarecimentos introdutórios que elucidam o leitor sobre a nuance de que aqui não encontrará nada sobre a mais recente obra de Saramago e a polémica que a rodeia podemos prosseguir para O Ensaio Sobre a Lucidez.

Imagine-se um país em que, num acto eleitoral, os habitantes da respectiva capital votam em branco. É a partir deste acontecimento que o romance se desenvolve dando-nos a conhecer a reacção da classe política que tenta, a todo o custo, assegurar a sua posição e importância na sociedade. Este livro é uma reflexão sobre a democracia e sobre a incapacidade dela (ou talvez dos seus agentes) de lidar com essa atitude diferente mas possível que é a de exercer o direito de voto não se escolhendo ninguém. Lembro-me de em 2004, quando o livro saiu, ter assistido a uma pequena palestra de José Saramago em Aveiro em que ele reforçou que o livro não era um apelo ao voto em branco (sim, na altura também foi um livro polémico) mas sim uma chamada à reflexão sobre uma situação que, apesar de possível, ninguém nunca abordou.

Para quem já tenha lido o Ensaio sobre a Cegueira é de notar que o país onde esse romance se passa é o mesmo onde os habitantes da capital votam em branco e que a mulher, o seu marido médico e o cão das lágrimas voltam a aparecer.

Apesar de não ser o livro de Saramago que mais gostei até ao momento, Ensaio Sobre a Lucidez é um livro bastante agradável de ler, chegando a ser, em muitos momentos, um retrato hilariante (e fiel…) da classe política e dos seus estratagemas.

Publicado por: Samuel | Outubro 14, 2009

Notas Breves XVI

No outro dia ouvi um comentário absolutamente delicioso. Para que percebam o contexto, um filho estava a falar com a mãe sobre a sua participação numas eleições.

Filho: Bem, as eleições são já daqui a dois dias!
Mãe: Oh filho, até tenho medo que ganhes.
Filho: Então porquê?
Mãe: Porque depois tornas-te político e ficas mau… os políticos são todos maus…

Publicado por: Samuel | Setembro 22, 2009

Notas Breves XV

Research is what I’m doing when I don’t know what I’m doing.

Werner von Braun

Publicado por: Samuel | Setembro 5, 2009

Revisitação ao Guardador de Rebanhos

Depois de ter relido trechos do Guardador de Rebanho do Alberto Caeiro que descobri numa estante em casa de amigos, andava desejoso de comprar a sua obra.

Descobri, no entretanto, uma antologia poética de Fernado Pessoa que já não me lembrava que tinha. Enfim, não é uma super edição. Trata-se de um volume editado pelo Público, que terei comprado há 15 anos, mas a verdade é que as palavras sabem bem na mesma.

Éis algumas delas…

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Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Publicado por: Samuel | Setembro 5, 2009

Giovanni Guareschi

Há algum tempo que quando a vontade existe e a disponibilidade colabora tenho vindo a adicionar contéudo a um site sobre o autor Giovanni Guareschi e a sua obra. É certo que, depois de algum tempo, ainda se encontra muito incompleto mas, do que conheço, algum do contéudo é inédito online, principalmente no que respeita aos detalhes das edições especiais.

Este site, que pode ser visitado no endereço http://giovanniguareschi.wordpress.com, pretende dar uma ideia geral da obra deste autor e das diferentes edições existentes (todas, ou quase, fora de edição) tendo por base a minha colecção pessoal.

Publicado por: Samuel | Setembro 5, 2009

E Eça, hein?

De há algum tempo para cá tenho percebido quão atual se mantém a escrita de Eça de Queirós. Uma pessoa distrai-se e quando dá por ela está a comprimentar o Conde de Abranhos.

Publicado por: Samuel | Agosto 2, 2009

Leituras XL – Stephen Hawking – A Brief History of Time

A Brief History Of Time

Este é um daqueles livros que vendeu milhões de exemplares por todo o mundo. O que eu pergunto sempre é quantas pessoas que o compraram o leram até ao fim.

Apesar de ser um livro de divulgação científica, que tenta colocar as principais ideias da cosmologia em termos mais acessíveis para os leigos na matéria, não deixa de abordar as questões com alguma da complexidade que lhes está associada. Ora, para alguém que não esteja familiarizado com alguns das ideias como a teoria da relatividade, matéria escura, energia escura e o espectro electromagnético pode acabar por sentir, a determinada altura, que já não está a conseguir seguir o raciocínio de Hawking. Os primeiros capítulos parece-me que serão acessíveis a quem tenha umas noções mínimas sobre o Universo, e sobre os conceitos básicos de Física. No entanto, os capítulos finais em que se abordam os buracos negros, singularidades, quarks, spins, teorias unificadas e a teoria das cordas poderão ser mais difíceis de acompanhar. Confesso que algumas partes do texto tiveram de ser lidas mais do que uma vez e nem sempre fui bem sucedido em perceber o que estava em causa. Quase de certeza que uma segunda leitura do livro o tornará mais claro.

Pelas razões acima, este não é, certamente, o livro que alguém que se começou a interessar agora pelo Universo deverá ler em primeiro lugar. Apesar do seu título, Uma Breve História do Tempo, que quase nos faz imaginar uma obra mais “filosófica”, o seu contéudo é de caracter marcadamente científico sendo os últimos capítulos uma leitura difícil para quem não tenha já algumas noções básicas sobre o que se está a discutir.

Para os que já mergulharam mais profundamente nestes temas e tenham interesse na cosmologia e de como se fez o percurso até às principais teorias actuais (embora haja avanços desde a altura em que o livro foi escrito) é uma leitura bastante interessante.

Publicado por: Samuel | Julho 24, 2009

Leituras XXXIX – Markus Zusak – The Book Thief

The Book Thief

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