Publicado por: Samuel | Outubro 6, 2008

A Aventura de Usar Barba

Acorda-se de manhã e lá está ela. Se a princípio é áspera e picante, alguns dias de paciência tornam-na fofa e felpuda. Mas, nada é tão simples…
A criação de barba é, hoje em dia, um actividade pouco levada a sério. É certo que algumas das personagens nas novelas da TVI têm barba: ou são personagens com poder (do qual abusam) e/ou responsabilidades numa empresa; ou são meliantes da pior espécie com alguma sofisticação; ou são drogados e meliantes sem sofisticação; ou são mulheres à antiga, trabalhadoras incansáveis dos campos em terras recônditas; ou são uns coitadinhos, abandonados pela família, que depois descobrem ter um irmão gémeo que é rico e ficam malucos. Os dois primeiros casos destinguem-se do resto porque as suas barbas são daquelas cheias de estilo, cortadas como se vê nas revistas, altamente aparadas, e descrevendo impressionantes curvas e contra-curvas na face de quem as enverga. E, verdade seja dita, não é destas que quero falar. Uma vez que não me enquadro no perfil de mulher trabalhadora dos campos, e não me acho com talento de hábil recortador de barbas com estilo, o sábio poder de construção de perfis da TVI não me deixa boas alternativas.

Dantes, no tempo em que até o Professor Marcelo a envergava, usar barba era algo de simples. Quanto muito, a determinada altura, alguém se aproximava de nós e, por entre sorrisos ligeiros, olhares de cumplicidade, e palmadinhas nas costas, nos revelava saber de tudo e nos convidava para pertencer ao Partido Comunista. Mas não se passava daí.

Usar uma barba (sem ser como as que se vêem nas revistas tipo Caras e Flash) tem as suas vantagens e desvantagens. É vital andar sempre bem penteadinho. Se forem a uma bomba de gasolina despenteados e barbudos quase sempre vão encontrar a bomba em que abastecem em pré-pagamento. O ideal, ao pagar, é faze-lo com cartão (atenção que falhar o código pode resultar em olhares temíveis por parte da operadora ) para evitar que as notas usadas no pagamento sejam molestadas por canetas de tinta invisível, luzes ultra-violeta e testes de marca-de-água.

Usar barba num carro com mais de 15 anos e pouco lavado origina que qualquer eventual operação stop demore mais algum tempo para as típicas inspecções de rotina ao triângulo, faróis, selo, número do motor, bagageira, bolsos, porta-luvas, récita dos nomes dos pais, altura, freguesia de nascimento, propósito da viagem, etc..

No entanto, usar barba tem a grata vantagem de tornar as pessoas por quem se passa mais cientes de si próprias, do seu valor, e do que possuem. É bonito e reconfortante, quando desço uma rua, ver as senhoras de idade cruzarem os braços sobre o peito enquanto baixam ligeiramente a cabeça, num gesto de carinho para consigo próprias, vê-las trocar a mala para o outro braço de forma a não esforçarem demasiado a coluna por levarem o peso sempre do mesmo lado, ou vê-las acelerar o passo deixando o ritmo medonho chamado “de ver montras” e que é terrível para as varizes.

E é bonito ver que os arrumadores, quando nos vêem a caminho do nosso carro num parque de estacionamento, desatam a correr e, em vez de nos pedirem uma moeda, fazem questão de nos mandar ir ganhar a vida para outro lado. Um gesto profundo e carinhoso de alguém que na sua infelicidade deseja aos outros sempre uma vida melhor que a sua…


Respostas

  1. Loooooooooool.
    Eh pá, se me vires na rua vou fingir que não te conheço ;-) , o que como ainda não te vi de barba se calhar até nem vai ser dificil.
    Quanto ao convite político, se vestires uma camisola de marca “Burberrys”, “Fred Perry” ou coisas do género, ainda és convidado para o Bloco de Esquerda :-) .
    Posso-te levar ao Porto um dia destes que me dê jeito? É que lá os arrumadores são muito chatos.


Deixe uma resposta

Your response:

Categorias