Publicado por: Samuel | Dezembro 30, 2011

Vocações Circenses

Quando falei pela primeira vez com o director do circo expliquei-lhe que sonhava poder ser acrobata. Ele respondeu que isso era exactamente o que procurava mas que ainda ia demorar algum tempo até que eu pudesse ter a minha chance. Enquanto isso, podia entrar  para a trupe e começar a ambientar-me com tudo e todos, conquistando o meu lugar. O tempo foi passando. A cada nova semana voltava a falar do meu intento ao director. Calma, aconselhava ele. Tempo. E eu confiava. O director estava à procura do timing certo. E o tempo continuou a passar. Certa noite, enquanto deambulava por entre as carrinhas, depois de alimentar os animais do circo, dei por mim a passar perto da roulotte do director. Conversava-se lá dentro. O director parecia estar a jantar com várias pessoas. Isso acontece sempre que passamos por alguma terra onde ele tenha conhecimentos. Quando assim é, depois da noite de estreia, convida os amigos para um jantar. Por isso não estranhei. Ouviam-se risos e já me afastava quando fui despertado dos meus pensamentos ao ouvir o meu nome.

- Eu te digo o que são sonhos. Olha, esse Saraiva que aí tenho a trabalhar. O tipo que viram a varrer a entrada. Um sonhador. Diz que quer ser acrobata de circo. Acrobata de uma figa é o que vos digo. Eu ajudo-o a perseguir o sonho dele, ajudo. Já está no circo! – risada.

- Todas as semanas me vem falar sobre quando poderá começar a aprender mais com os acrobatas do circo, a participar nos seus números. Idiota! Sabem o que faço? Digo-lhe que talvez para a semana e mando-o limpar o curral dos elefantes! – nova risada.

- Ou então digo-lhe que dadas as actuais circunstâncias talvez não venha a ser possível ter mais um acrobata. E depois digo que, enfim, o actual arobata já está a ficar velho e que talvez venha a ser preciso alguém para a equipa, mas não sei quando. E mando-o lavar a tela da arena ou escovar as zebras! – risada estrondosa.

- É isto que dá ser sonhador. Tenho quem me limpe os currais e quem me faça rir com a sua idiotice. Tenho-o aqui, nas palminhas! E, diga-se, o rapaz tem um dom natural para a actividade circense. É um muito natural palhaço. – risada eufórica.

A partir daqui não ouvi mais. Meti as mãos nos bolsos, apressei o passo até à estrada que passava ali perto e vagueei pela luz fria dos candeeiros públicos até me cansar.

Hoje às 21h, se ainda não for acrobata, vou desaparecer. Apanho o autocarro para Vizeirão e nunca mais me põem a vista em cima. Ninguém vai limpar o curral dos elefantes nem lavar a tela para a sessão da noite. Ninguém vai treinar nas horas quentes do dia na esperança de ter uma oportunidade.

Sonhava ser acrobata de circo  e se-lo-ei noutro circo qualquer mas aqui não passei afinal de um palhaço para alegrar as conversas do director com os amigos. Até pode ter piada. Mas agora fiquem com a m&$%# dos elefantes que, à minha custa, não se riem mais.


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