Publicado por: Samuel | Janeiro 1, 2012

Leituras XL – Haruki Murakami, 1Q84

1Q84 é o novo romance do escritor (e corredor de maratonas) japonês Haruki Murakami. Em Portugal acaba de sair o primeiro dos três volumes que compõem a obra mas em Novembro os três livros sairam em língua inglesa e, com capas duras, custam pouco mais do que o primeiro volume em Portugal.

1Q84 conta-nos a história de dois jovens japoneses, Tengo e Aomame, acompanhando-os ao longo das suas vidas que, a determinada altura, se cruzam. O autor segue o já familiar método de dedicar um capítulo a cada uma das personagens de forma alternada.

No que respeita a Tengo, um “explicador” de matemática e aspirante a escritor, a história começa quando este é convidado a reescrever um romance que foi submetido para apreciação para um prémio literário. O seu editor acha que a história tem imenso potencial mas que está mal escrita e que talvez Tengo possa melhora-la. O objectivo é manter a história na corrida pelo prémio literário mas omitindo o facto de que foi reescrita. Tengo enfrenta um dilema: por um lado não se sente confortável com a ideia porque, eticamente, está a proceder mal; por outro lado, a história fascina-o de tal forma que ele não consegue recusar.

Aomame ou, traduzindo à letra, Ervilhas Verdes, é uma instrutora de ginástica com um dom muito especial que usa para prestar “auxílio” a algumas mulheres em situações extremas.

Todas as imagens de marca de Haruki Murakami podem ser encontradas nestes livros: a descrição, por vezes ostensiva, do dia-a-dia das personagens, com um foco muito particular na preparação das refeições; a construção de cenários/experiências surrealistas para o desenvolvimento da história; a sexualidade como veículo para uma catarse/mudança/ligação das personagens.

Todas estas marcas, incluindo o aspecto surreal de algumas das situações, quase sempre me agradaram nos romances de Haruki Murakami mas este tem, na minha (muito) modesta opinião, alguns problemas.

Em primeiro lugar, o aspecto surrealista da história sobrepõem-se demasiadamente à realidade das coisas. Se em muitos dos romances, as situações surreais surgiam por entre a acção real e, independentemente da sua natureza, podiam eventualmente ser encaradas como metáfora de algo real mas intangível, no caso de 1Q84 senti que o peso dos cenários surreais se sobrepôs ao real. Talvez me tenha equivocado mas a sensação que tive foi que o motor da história era demasiadamente surreal para ter a consistência que eu esperava encontrar.

Por outro lado, fiquei com a sensação de que o terceiro volume praticamente não acrescentou nada à história. Se é verdade que traz uma nova personagem, Ushikawa, a história arrasta-se e muitas das deduções apresentadas soam a apressadas e pouco credíveis não porque não sejam acertadas, mas porque são atingidas demasiadamente depressa. Para além disso, no início do terceiro volume, já se adivinha como tudo vai acabar. E daí até ao fim são mais de 350 páginas. Os primeiros dois volumes, nas suas cerca de 700 páginas, foram mais agradáveis de ler e mantiveram o meu interesse até perto do fim.

1Q84 está bem escrito, a história tem imenso potencial e existem passagens de extrema beleza e profundidade mas dei por mim a perguntar muitas vezes (talvez demasiadas) que simbolismo ou importância teriam algumas das situações e a resposta “ocupar espaço” apareceu bastante.

Posto isto, 1Q84, não me parece a obra prima que muitos anunciavam quando o livro saiu no Japão. Daquilo que conheço de Haruki Murakami, este não é um dos seus melhores romances e não é, claramente, um bom ponto de partida para começar a ler este autor.

Pergunto a mim mesmo se esta minha opinião menos positiva não será também fruto da tremenda expectativa com que acolhi este romance. Na verdade, foi o único romance que li de Haruki Murakami logo após ter chegado ao mercado (com direito a pré-encomenda na Amazon) e esperava, pela sua dimensão, algo como Kafka à Beira Mar ou Crónicas do Pássado de Corda. Ou talvez seja influência (ainda que inconsciente) da opinião de uma amiga que me disse não gostar dos aspectos surrealistas em Kafka à Beira Mar, por os achar exagerados e sem sentido. Mas a verdade é que pelo meio da leitura do terceiro volume acabei por ler a Odisseia de Homero o que não abona muito a favor do meu envolvimento com 1Q84. Foi um martírio termina-lo (e ficar a saber o que já imaginava sobre o fim).

Outra sensação com que fico é a de que esta obra talvez não fique por aqui. Tal como os leitores japoneses foram surpreendidos pelo terceiro volume de 1Q84, palpita-me que mais poderão surgir. Isto porque alguns acontecimentos no final do terceiro volume deixam espaço para que isso aconteça. E talvez essa possível continuação dê à obra como um todo um outro valor. A determinada altura (será isso um sinal?), Aomame começa a ler a Recherche do Proust… o que ocupará o papel da madalena em Murakami?

Nota: 3,5/5


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