“Era uma terra onde as pessoas há muito que haviam deixado de querer ser gente. Ninguém maltratava ninguém como se maltratam os cães de beira da estrada, mas surgidas do nada as mentiras amontoavam-se sem razão. Ouviam-se sem serem pedidas e recebiam-se sem delas se precisar. No fim já nada do que se dizia valia o que quer que fosse.
As mentiras pequenas acabaram por pesar muito mais do que as grandes porque espelhavam uma explícita dependência do acto em si, da construção de uma realidade alternativa desnecessária e desonesta. A coragem da atitude real sem a coragem franca de a explicar com as palavras genuínas de que ela foi feita. E quando assim é perde-se o amor ao que existe por se temer que também isso não seja o que parece ser. É a velha estória do pastorzinho e do lobo.”
Teófilo Cardoso
Em Torno do Sol